Esqueleto Histórico
O Renascimento começou em Florença no século XIV e mudou para sempre a relação do Ocidente com o conhecimento. Impulsionado pela redescoberta dos textos clássicos gregos e romanos — muitos trazidos de Constantinopla antes e depois da queda da cidade em 1453 —, um novo humanismo colocou o ser humano, e não apenas Deus, no centro do pensamento. Florença tornou-se o laboratório desse experimento graças ao dinheiro dos banqueiros, sobretudo a família Medici, que patrocinou artistas, filósofos e cientistas como se a beleza fosse uma questão de Estado. As inovações transformaram todas as artes. Brunelleschi, após estudar as ruínas do Panteão, ergueu em 1436 a cúpula da Catedral de Santa Maria del Fiore (Duomo) sem andaimes apoiados no chão — um feito de engenharia que ninguém repetira desde a antiguidade. A perspectiva matemática, a anatomia científica de Leonardo da Vinci e a potência expressiva de Michelangelo, Rafael e Botticelli criaram obras que definiram o cânone da arte ocidental. O 'David' de Michelangelo, esculpido em um único bloco de mármore de Carrara, virou o símbolo máximo dessa confiança no potencial humano. De Florença, o movimento espalhou-se pela Itália — para Roma com o papa Júlio II, que chamou Michelangelo para pintar a Capela Sistina e Bramante para redesenhar o Vaticano, e para Veneza, onde Ticiano coloriu o Renascimento — e depois para toda a Europa, da França à Inglaterra. A ciência moderna, a imprensa e a própria ideia de 'gênio' individual nasceram desse período. Visitar Florença hoje é entrar no laboratório onde o mundo moderno foi inventado.
Histórias Humanas
Lorenzo de Medici
Conhecido como 'Lorenzo, o Magnífico', governou Florença no auge do Renascimento. Mais do que um político, foi o maior mecenas da história: patrocinou Botticelli, Michelangelo (que morou em seu palácio dos 14 aos 17 anos), Verrocchio (mestre de Da Vinci) e o filósofo Marsilio Ficino. Ele mesmo era poeta e filósofo. Dizia: 'Não tenho ambição de ser rei, apenas de ver Florença brilhar.' Após sua morte, Michelangelo disse: 'Perdemos a luz que iluminava a Itália.'
Michelangelo Buonarroti
Com 13 anos, Michelangelo entrou na oficina de Ghirlandaio; aos 26, esculpiu o 'David' de 5 metros em um bloco de mármore que dois mestres anteriores haviam abandonado por considerá-lo 'arruinado'. O jovem de 24 anos que venceu o concurso pela Galleria dell'Accademia apostou tudo no bloco defeituoso e criou a escultura mais famosa do mundo. Quando o papa Júlio II o chamou para pintar a Capela Sistina, Michelangelo, que se considerava escultor, resistiu — mas o teto que entregou em 1512 se tornou sua obra-prima.
Sandro Botticelli
Botticelli pintou 'O Nascimento de Vénus' e 'A Primavera' para a família Medici, obras que hoje são o cartaz da Galeria Uffizi. Mas no fim da vida, abalado pelas pregações de Savonarola contra a 'vaidade' da arte, o pintor chegou a atirar algumas de suas obras na 'fogueira das vaidades'. Sua fama caiu a tal ponto que ele morreu esquecido em 1510 — e só foi redescoberto e celebrado no século XIX, quase 400 anos depois.
Gancho Contemporâneo
Visite a Galeria Uffizi para ver 'O Nascimento de Vénus' de Botticelli e a Galleria dell'Accademia para o 'David' de Michelangelo. A cidade de Florença em si é uma obra de arte viva.
Suba os 463 degraus da cúpula de Brunelleschi na Catedral de Santa Maria del Fiore (Duomo) e entenda, de perto, por que a engenharia renascentista continua um marco: a maior cúpula de alvenaria do mundo, construída sem andaimes de apoio.
O 'David' ainda inspira o mundo moderno: é referência em design, publicidade e até em campanhas de direitos humanos. A réplica na Piazza della Signoria reproduz o original que, até 1873, ficava ao ar livre como símbolo cívico de Florença.
Onde esse passado está vivo
Lugares que você pode visitar hoje e que carregam a marca deste período.
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